Às vezes eu me flagrava querendo mudar tudo na minha aparência.
Não se tratava de insegurança, era um desconforto que sempre esteve espreitando uma tarde nublada ou uma noite de entretenimento para me assombrar, ainda que eu estivesse ciente de seu exagero. Creio que a maioria das pessoas não admite a mesma insatisfação, porém prefiro pecar pelo excesso de franqueza do que pela omissão.
Sabia que não era horrível a ponto de cegar quem me encarasse, mas não aceitava nada em meu corpo ou meu rosto que destoasse dos padrões de revistas de moda e comerciais. Na maior parte do tempo acho que é uma forma de vaidade proveniente do excesso de cobrança que me imponho desde criança.
Deixem-me acrescentar o agravante: quando as pessoas- por completa idiotice- apontam para os defeitos dos quais você se apavora, costuma ser uma das formas mais fáceis de fazer com que você se preocupe mais ainda com o assunto.
Quando eu era bem mais nova, um garoto de chamou de gorda na escola (acho que é a primeira vez que exponho isto) e na época eu não tinha o meu ceticismo atual em dose suficiente para ignorá-lo. Então eu fiquei neurótica achando que a culpa era minha por não me enquadrar e comecei a me exercitar feito uma desvairada para me sentir aceita. Moral da história: fiquei cadavérica, anoréxica e chorando todas as noites.
Claro que ao crescer percebi a burrice do que estava fazendo, mas confesso que até hoje tenho medo de cair na mesma armadilha novamente. Não no que se refere ao peso, mas ao resto da minha figura também.
É incrível como as meninas- não me excluo do exemplo- podem se encher de maquiagem e passar horas arrumando o cabelo e agir como se estivessem perfeitamente bem quando no interior se sentem insignificantes ou que não são o suficiente.
Inteligentes o suficiente. Bonitas o suficiente. Legais o suficiente.
Porém, sempre que este medo me acorda, eu me lembro de como toda a cobrança só fez com que me punisse e causou uma sensação de desprezo. A verdade é que não existem pessoas perfeitas.
Estas mulheres e homens sem defeito algum nas propagandas passam por camadas de photoshop, milhões de cabeleireiros/estilistas/iluminação adequada/corretivos e vendem uma imagem divina impossível de atingir. Os produtos que supostamente garantirão perfeição nunca surtirão os efeitos desejados porque nós somos humanos. Cheios de diferenças e singularidades que nos tornam especiais.
E eu entendo: os estilistas têm que vender suas roupas, a MAC quer quer você compre as bases e sombras e sabe se lá o que, os fabricantes dos diet shakes ou o Doctor Ray realmente preferem que você adquira seus produtos... Mas tudo tem seu limite.
Será que uma menininha de nove anos vai ter a estrutura psicológica para compreender que a falta daquela maquiagem ou da barriga tonificada não a torna menos adorável? Céus, será que até mesmo mulheres crescidas perceberão que nem tudo na vida se restringe ao sapato da estação ou ao número na balança?
Acreditem: horas na academia ou no salão não farão com que sejam mais felizes.
É ótimo se sentir confortável na própria pele, mas não tentem mudar às custas de suas neuroses ou das alheias. Não sei se foi pelo que eu passei no hospital ou por finalmente me dar conta do que importa, porém aqui fica minha opinião: fiquem menos obcecados pelo que vestem ou pelo reflexo e mais atentos a quem são. Aos seus sonhos, as suas convicções, ao caráter.
Do que adianta namorar um sósia do Jude Law se o cara for um degenerado ou totalmente promíscuo? Qual a serventia de ter uma esposa que é a réplica da Megan Fox se ela for mesquinha e cruel com todos ao redor? Sobre qual frágil ilusão estamos construindo nossas expectativas? Quem hoje é bonito amanhã envelhece, ganha rugas estampadas no rosto e uma barriga de cerveja. Os anos não perdoam, queridos.
Não sou perfeita, tampouco linda de morrer no exterior, contudo sei em meu coração que prefiro ter dedos do pé estranhos e bochechas vermelhas como se tivesse acabado de correr uma maratona do que me tornar escrava da aceitação dos outros. Uma conhecida minha considerada bonita por todos ao redor, porém criteriosa consigo, foi aprovada após anos de estudo em um concurso para ser juíza e cismou em se submeter a uma plástica. Morreu no processo e deixou de experienciar tudo que havia plantado em seu passado. Perguntem-se: valeu a pena? (É retórica a indagação, obviamente).
É só a partir do momento em que nos aceitamos que estamos habilitados a enxergar a beleza que importa ao invés da que salta aos olhos. Dane-se o que os outros pensam e a Vogue de setembro.
Vocês são muito menos entediantes do que a perfeição e muito melhores do que imaginam.
Hoje eu tenho o que me basta: sou saudável, talvez nada sexy mas contente com o meu jeito de levar a vida. O resto é dispensável.
Para os que desejam ser persuadidos pelo youtube:
http://www.youtube.com/watch?v=Ei6JvK0W60I - Assistam!
http://www.youtube.com/watch?v=fULtU2NfPQA&feature=fvwrel (e este também, é uma lição para todos)
"You can buy your hair if it won't growYou can fix your nose if he says soYou can buy all the make upThat MA.C. can make
But if you can't look inside youFind out who am I tooBe in the position to make me feelSo damn unpretty"

































